Um desporto que prioriza a fome dos adeptos (e dos milhões) em detrimento da saúde dos atletas é um desporto sem futuro

Um desporto que prioriza a fome dos adeptos (e dos milhões) em detrimento da saúde dos atletas é um desporto sem futuro

O adepto vive o futebol e não passa sem ele. Quer cada vez mais jogos, mais competições, mais espectáculo. Quer jogos à quarta e ao sábado, semanalmente. Quer cada vez mais porque o espectáculo do jogo lhe alimenta a alma e o faz esquecer dos problemas do dia-a-dia. Mas o adepto não corre.

O adepto de ténis quer encontros jogados no último set, quer Grand Slams sem tie-breaks, que resultam em jogos como o de Kevin Anderson vs John Isner nas meias-finais de Wimbledon, decididos num 26 – 24 no último set. O adepto quer pontos memoráveis, quer emoção interminável. Mas o adepto não corre, o adepto não sabe ou prefere ignorar que este excesso pode afectar o espectáculo.

O adepto de ciclismo quer corrida até ao último esforço, quer intensidade e velocidade, quer emoção, quer competição sob quaisquer circunstâncias, mesmo que seja o dia mais quente do ano de que há memória e registo. Quer que se cumpram as regras, mesmo que para isso seja preciso ficar mais de 3 horas sem beber água para cumprir um controlo antidoping, após uma corrida interminável com um calor insuportável. Mas o adepto não pedala, não sabe ou prefere ignorar que esse excesso pode afectar o espectáculo. Nem tem de saber. Mas as organizações desportivas têm.

As organizações desportivas têm o dever de o saber. Têm o dever de garantir que a saúde dos jogadores (física e mental) não é secundarizada por interesses económicos, nem pela paixão de adeptos que querem sempre mais.

Têm o dever de garantir que os jogadores de futebol têm direito a um período mínimo de férias, principalmente quando 10% dos jogadores das quatro principais ligas jogam mais de 60 jogos numa época, e 13% mais de 50. Têm de assegurar que não se jogam encontros de ténis de 6 horas e 36 minutos, nem se terminam jogos de ténis às três da manhã. Têm de adiar competições quando estão mais de 40 graus e quando jogadores são alvos de um ataque sem precedentes a uma academia. Porque, em primeiro lugar, é da saúde dos jogadores que estamos a falar e, consequentemente, do espectáculo ou da falta dele. E este verão tem sido fértil em exemplos disso mesmo.

Desde jogos do Mundial com a falta de intensidade habitual a que uma competição desta dimensão nos habitou; a uma final de Wimbledon desnivelada porque Kevin Anderson estava claramente sem condições para a jogar, depois de uma maratona nas meias-finais, em que nem forças teve para festejar a vitória; a um encontro de ténis em Washington que termina às 3 da manhã no qual Andy Murray, apesar da vitória, não consegue evitar as lágrimas (não que o tivesse de o fazer) devido ao cansaço; a uma Volta a Portugal em que os ciclistas têm de beber 20 litros de água para não ficarem desidratados e mesmo assim acabam por desistir por desidratação, acabando mesmo a noite no hospital.

Será que isto é que é espectáculo? Só se for um degradante que se preocupa mais com os milhões do que com os PROFISSIONAIS que o praticam.

Opinião de José Bourbon

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