“Se toda a gente adora ver um bailarino num recital de balé, porque é que não hão-de gostar de ver na natação artística.”

“Se toda a gente adora ver um bailarino num recital de balé, porque é que não hão-de gostar de ver na natação artística.”

Há poucos desportos como a natação artística – antigamente apelidada de natação sincronizada – no que à sua participação diz respeito. Encontrar um homem nesta modalidade, é como encontrar uma agulha num palheiro: difícil, mas possível. Em Portugal há apenas dois rapazes a treinar em clubes. Também por esse mundo fora – exceptuando Inglaterra onde já há pelo menos três clubes com natação artística masculina – não existe uma categoria masculina, os homens só participam em duetos mistos, não participando nos solos.

Para perceber a realidade deste desporto, basta ler o regulamento da Federação Portuguesa de Natação. O documento refere que “a participação em provas nacionais é reservada a nadadoras filiadas na Federação Portuguesa de Natação (FPN) como individuais”, o que exclui (mesmo que inconscientemente) a presença de homens neste desporto. Mas nem sempre foi assim. Nos seus primórdios, esta modalidade era praticada só por homens, o que nos leva a perguntar o que mudou para que hoje estes sejam uma presença pouco comum?

De forma a obtermos resposta a esta e outras questões, a Sports For All esteve à conversa com Mariana Marques, Directora Técnica Nacional de Natação Artística.

Como é que se explica esta ausência de homens na natação artística?

Podemos começar pela parte preconceituosa. O estereótipo da natação artística ser só para meninas, e de ser uma modalidade feminina, faz com que seja mais difícil conseguir  aumentar o interesse dos rapazes em treinar e aprender. Para além disto, normalmente a natação artística é uma modalidade que exige muita flexibilidade, movimentos graciosos e isso pode ser um factor importante que talvez atraia mais as meninas.

Mas quando apareceu,  no século XVIII, esta modalidade era praticada apenas por homens. O que aconteceu para esta mudança de 180 graus?

Acho que na altura esta mudança foi muito imposta pela sociedade, pelo surgimento do estereótipo de beleza. É também preciso relembrar que, na altura, aquilo não era bem natação sincronizada. Eram técnicas de nado sincronizado, saltos para a água, faziam movimentos, formações, não era a natação sincronizada como nós a conhecemos agora. Diz a história que até os Samurais eram fãs da modalidade.

Um país que tem sido bastante vocal a questionar esta realidade da falta de homens é a Inglaterra. Alguns clubes ingleses têm feito pressão sobre a FINA [Federação Internacional de Natação] para que abram a possibilidade aos homens participarem em todas as categorias de natação artística, em competições como os Jogos Olímpicos por exemplo. Acha que a FINA devia aceder a este pedido?

Em 2015 a FINA aceitou a entrada dos homens nos duetos mistos. Solos ainda não é permitido. Já existem também em juvenis em todos os escalões. A partir daqui acho que é uma questão dos países se começarem a organizar e a conseguir ter homens nas suas equipas nacionais. No último Europeu de Juniores em que nós participámos,  que foi este ano na Finlândia, a própria  LEN (Liga Europeia de Natação) informou-nos que não existe nenhuma regra que diga que as equipas tenham que ser unicamente femininas, não há qualquer menção a um género obrigatório. Mas geralmente são mulheres, porque ainda estamos muito formatados para ser tudo feminino.

Mas a FINA tem estado um pouco reticente a mudanças, ou não? No ano passado Niklas Stoepel, nadador alemão que participou no Campeonato do Mundo, teve algumas dificuldades em convencer a FINA a deixá-lo participar e, para além disso, alguns colegas de profissão não reagiram muito bem à sua presença. A campeã olímpica Svetlana Romaschina afirmou mesmo que era “contra os homens no nosso desporto”.

Bem, em relação a isso, acho que as políticas ainda se estão a adaptar à realidade. Parece-me que isso de certeza ainda vai evoluir bastante, e daqui a alguns anos vamos estar a falar de uma realidade completamente diferente, até porque a questão do preconceito e do estereótipo de beleza feminino ou masculino tem se vindo a alterar muito nos últimos anos… sinceramente acho que se toda a gente adora ver um bailarino no recital de balé, porque é que não há de gostar de ver na natação artística?

A natação artística também se diferencia de outros desportos por ter uma preocupação com a beleza exterior, visto que as raparigas que participam estão geralmente muito “maquilhadas”… Acha que isso também pode contribuir para afastar os homens?

Agora já existe uma regulamentação para isso. Desde o último quadriénio o regulamento da FINA definiu que não é permitida maquilhagem que seja exagerada. Também nas competições internacionais o uso de maquilhagem está a ser controlado para não ser demasiado extravagante… ser o mais ‘natural’ possível. E na verdade os homens não precisam de usar maquilhagem, aliás, a maioria não usa. 

Olhando para o cenário nacional, a Federação tem tido a preocupação de criar iniciativas para aumentar o interesse de atletas masculinos?

Sim. Por exemplo, recentemente estivemos presentes num encontro nacional do jovem nadador, em Castelo de Vide, onde estiveram presentes todos os nadadores cadetes das associações regionais de Portugal. Nesse encontro, todos os meninos e meninas passaram por um circuito em que experimentaram todas as modalidades: saltos para água, natação, pólo aquático e natação artística. Essa é uma forma de nós darmos a possibilidade a todas as crianças – rapazes e raparigas – de experimentarem a modalidade e enveredarem pela mesma, caso estejam interessadas.

Outra das formas é convencer os clubes a inserir rapazes nas equipas, e já temos dois clubes que têm dois meninos a treinar.

Por último, quais as expectativas para a próxima grande competição, o Europeu de Absolutos em Glasgow?

As expectativas são melhorarmos o nosso ranking internacional, ou neste caso europeu, relativamente ao último Europeu de 2016 – principalmente em relação àqueles países com os quais competimos com regularidade. É preciso, no entanto, explicar que os atletas da nossa selecção são ‘profissionais-amadores’, ao contrário dos atletas de 11 países que vão estar a participar no Europeu, que treinam diariamente em centros de alto rendimento. Nós juntamos-nos em concentrações de treino durante o ano, e em alturas prévias à competição, portanto as nossas condições são diferentes destes países.

Ainda assim o nosso objectivo é sempre superar a marca anterior – 68 nos duetos, 71 nas equipas. No entanto, falar em pontuações é sempre um pouco injusto, visto que as pontuações variam sempre de competição para competição.

Como assim?

Como este ano não é ano Olímpico, a participação no Europeu vai ser muito maior em termos de países a participar, portanto será muito mais competitivo. O que nós pretendemos é melhorar o nosso nível e superar as nossas pontuações relativas ao último Europeu, mas em relação à classificação, e em termos de ranking internacional, difere muito de ano para ano, e depende sempre muito do número de participantes. 

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