Em 2016 tornou-se na primeira atleta muçulmana-americana a usar um hijab nos Jogos Olímpicos, ganhando o bronze. Dois anos depois, conta como foi marginalizada pela própria equipa

Em 2016 tornou-se na primeira atleta muçulmana-americana a usar um hijab nos Jogos Olímpicos, ganhando o bronze. Dois anos depois, conta como foi marginalizada pela própria equipa

Verão de 2016. Jogos Olímpicos do Rio.  Ibtihaj Muhammad torna-se na primeira atleta muçulmana-americana a participar nos jogos olímpicos usando um hijab. A juntar a isto, alcança mesmo a medalha de bronze em sabre de equipas, para gáudio do povo americano. Feito histórico, sinal de que cada vez mais a diversidade é vista como algo natural num mundo de constantes migrações, e de que a discriminação racial faz parte do passado. Era bonito, mas a realidade dos factos não é esta: quem o revelou foi a própria atleta, numa entrevista ao The Guardian.

“Guerra psicológica”. É assim que atleta Muhammad descreve o ambiente vivido com as suas colegas de equipa, durante os Jogos Olímpicos, colegas essas que, considera, tiveram um comportamento “bizarro”, excluindo-a e tratando-a como se estivesse a mais no grupo.

Situações como o seu nome não aparecer nos formulários de equipa, e-mails de equipa não lhe serem enviados, ser ignorada pelos seus colegas e não ser convidada para jantares de equipa, tornaram-se recorrentes.

Durante o Ramadão, o próprio treinador acusou-a de ser “preguiçosa” e de “abrandar o ritmo” ou mesmo de “faltar propositadamente aos treinos”, chegando mesmo a duvidar de uma lesão sua: “se já consegues andar, é porque essa lesão não é assim tão grave”, disse-lhe Korfanty, depois do departamento médico do clube lhe diagnosticar uma entorse no tornozelo.

Palavras como “Estás bem, ibti. Precisas de descansar um minuto?”, foram umas que nunca saíram da boca do seu treinador, e que a atleta gostaria de ter ouvido, como confessa no livro publicado na semana passada.

Perante esta situação, Ibti (como era tratada por jogadores e treinadores) decidiu informar o Comité Olímpico dos EUA (USOC) sobre o que se tinha passado. Tendo em conta os valores realçados no site do mesmo – Excelência, respeito, trabalho de equipa, inclusão e paixão – talvez fosse de esperar que IBti recebesse apoio e compreensão, mas aquilo que lhe deram de volta foi silêncio. Silêncio esse que parece ser uma fórmula de resposta que o Comité usa com frequência, visto que às tentativas do jornal The Guardian, em falar com a USOC sobre estas acusações, a resposta foi a mesma: nenhuma.

Esgrima: Um desporto de brancos? Não, de ricos

Quando lhe perguntam, se tudo o que se passou com ela se deve ao facto de a esgrima ser um desporto jogado, na sua maioria, por brancos, a muçulmana-americana rejeita esta ideia.

“Não é um problema de cor de pele, mas sim ser um desporto de acesso limitado. A esgrima é um desporto tão caro, que não é praticado nas escolas públicas, nem sequer nos subúrbios das cidades, onde há uma grande presença de minorias. Porque é de difícil acesso, este desporto acaba por ficar muito restrito, no que aos seus participantes diz respeito. O praticante de esgrima é, predominantemente, alguém com dinheiro e que vem de famílias de brancos.”

Daí que organizações como a Peter Westbrook Foundation sejam tão importantes para formar atletas desde novos e dar a oportunidade às minorias de treinarem com atletas do mesmo meio, algo que não aconteceu consigo:

“Eu conheci atletas que que começaram a ir a mundiais  aos 13 anos. Eu tinha 23 anos quando participei na minha primeira competição internacional. Antes disso, nem sabia que havia a possibilidade de viajar pelo mundo para fazer esgrima.”

No final da entrevista, Ibti esclarece que “não gosta de ser dramática, mas que ao mesmo tempo quer ter as mesmas oportunidades que toda a gente”, explicando o porquê: “já é difícil o suficiente chegar ao topo. Se olharem para ti como sendo diferente faz com que tudo seja ainda mais difícil. Teria sido bem mais fácil para mim, e para os meu colegas de equipa, se tivéssemos sido capazes de coexistir, não apenas como colegas de equipa mas como amigos. No final do dia, isto é um trabalho. Imagina ires para o trabalho infeliz e fazerem-te sentir que estás ali a mais.”

Tudo o que se passou com Ibtihaj Muhammad, durante os jogos olímpicos, pode ser lido no livro, escrito pela própria e publicado na semana passada, intitulado: “Proud: My Fight for an Unlikely American Dream” (Orgulho: a minha luta por um improvável sonho americano, numa tradução livre).

Abaixo pode ver Ibti, no programa de rádio Hot 97, a falar sobre várias destas questões.

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