“As pessoas querem que o desporto as entretenha, não que as eduque sobre problemas sociais”. Perceba como combater esta ideia, numa entrevista com o novo modern man of distinction

“As pessoas querem que o desporto as entretenha, não que as eduque sobre problemas sociais”. Perceba como combater esta ideia, numa entrevista com o novo modern man of distinction

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Há quem diga que o desporto é união, partilha e comunhão entre comunidades que raramente vemos juntas no cenário do dia-a-dia. Talvez por isso seja comum ouvirmos que o desporto tem a capacidade para mudar a sociedade, hipótese que não parece descabida tendo em conta as audiências. Paradoxalmente, muitos acusam o desporto de estar atrasado em relação aos restantes meios da sociedade. Talvez porque este é avesso à mudança e apegado à tradição. Talvez já sejam demasiados “talvezes”. Talvez o melhor seja falar com quem sabe, para perceber o porquê de tantas contradições. E se há alguém que conhece o impacto que o desporto pode ter na sociedade, esse alguém é Shaun M. Anderson.

Shaun Anderson foi recentemente galardoado pela revista Black Enterprise, com o prémio Modern Man of Distinction. O afro-americano, que é professor assistente de Comunicação Organizacional, na Universidade de Loyola Marymount, em Los Angeles, tem dedicado a sua vida a estudar como é que o desporto pode ser utilizado para mudar a sociedade, revitaliza-la e uni-la, trabalhando de perto com diversas organizações desportivas para lhes ajudar nesse processo. Mas qual o seu papel e os maiores desafios que encontra? Foi para responder a estas e outras questões que a Sports For All teve à conversa com Anderson numa entrevista que pode ler abaixo.

Quando e como é que nasceu o seu interesse pelo impacto social do desporto?

Acredite-se ou não, começou quando eu ainda era um jovem, provavelmente com 9 ou 10 anos. Eu gosto de praticar desporto para estar em forma, mas nunca percebi porque é que existia tanta pressão social para o fazer. Ao crescer como um miúdo preto no sul dos EUA, quem não praticasse desporto, estaria isolado e ostracizado da comunidade. Portanto, foi durante a minha infância que a minha mente ficou curiosa sobre os aspectos sociais do desporto.

Recentemente foi distinguido pela revista Black Enterprise com o prémio modern man of distinction por contribuir para criação de responsabilidade social no desporto. Como é que tens feito isso?

O meu trabalho é parte de uma bolsa de estudos. Eu utilizo a minha pesquisa para resolver problemas do mundo real. Concretamente, uso a minha pesquisa para perceber como é que podemos tornar as organizações desportivas mais competentes e responsáveis, em áreas como desenvolvimento comunitário, igualdade, bem estar social, pobreza e outras questões globais.

Quando recebeu o prémio disse que “muitas vezes as pessoas não sabem como usar o desporto para causarem mudanças na sociedade”. Pode dar-me um exemplo dos erros mais comuns que as pessoas cometem? E quais são as formas mais eficientes de usar o desporto para criar esta mudança?

Um dos erros mais comuns quando se usa o desporto para criar mudança social é quando as organizações desportivas criam causas sociais, sem conhecerem e perceberem realmente as comunidades no qual essas causas se vão aplicar. Num dos meus trabalhos de pesquisa analisei o sucesso do programa de diversidade da Major League Baseball: cheguei à conclusão que a maioria dos stakeholders ainda está desconectada e desconhecem a realidade das comunidades. Portanto, é necessário que as organizações tenham um conhecimento mais aprofundado das comunidades onde estão inseridas.

Ainda assim, isto mostra-nos que as organizações estão interessadas em criar programas socioeconómicos e de saúde para ajudar as comunidades. No entanto, isso não é suficiente, é preciso saber como fazê-lo.

Trabalhou com organizações como a Major League Baseball, the Anti-Defamation League, League of California Cities and Football University. Qual é que são os seus objectivos e o que é que já conseguiu alcançar?

O meu principal objectivo ao trabalhar com estas organizaçõe, é ajudá-las a medir os níveis de atenção que estão a dar a diferentes questões sociais. No caso da Major League Baseball ajudei-os a reconhecer que eles precisavam de conhecer aprofundadamente as comunidades que apoiavam, para que não adoptassem programas de mudança social que na verdade não estavam a mudar coisa nenhuma. Na League of California Cities criei um workshop de desenvolvimento comunitário através do desporto. Com a Anti-Defamation League, ajudo-os com cursos e workshops sobre diversidade e inclusão em distritos escolares. Com a Football University, eu ensino jovens atletas a serem líderes eficazes.

Tendo trabalhado de perto com todas estas organizações, o que é que mais o surpreendeu? Houve algum momento em que pensou: foi para isto que eu decidi trabalhar nesta área?

Eu diria que o que mais me surpreendeu foi a quantidade de jovens que têm vontade de ser líderes dentro comunidades onde estão inseridos. Muitas vezes, os jovens de hoje são vistos como sendo preguiçosos, apáticos e a não estarem habituados a responsabilidades. Mas depois de ter feito um discurso na Football University – que tem o maior estádio de futebol sem-contacto dos EUA, onde o foco está em ensinar a técnica – muitos deles vieram ter comigo, prontos para tomar notas, porque queriam saber como é que podiam aplicar os conselhos de liderança que eu lhes tinha dado, de forma ainda mais concreta. São momentos como este que me motivam a utilizar a minha plataforma de forma a criar mudança social.

Acha que o impacto do desporto em criar mudança social é o mesmo em todos os países ou varia de país para país, de continente para continente?

Acredito que varia muito de país para país e de continente para continente. Por exemplo, enquanto colaborava com alguns colegas do Birkbeck Sport Business Centre, em Londres, explicara-me que enquanto a responsabilidade social das corporações é muito analisada na Europa, nos EUA não é assim tão significativo. Recentemente a Beyond Sport – uma organização desportiva global – anunciou as melhores organizações que usam o desporto para mudar a sociedade. Das 35 organizações seleccionadas para o prémio, apenas 6 são dos EUA. As outras 29 eram de outros países de diversos pontos do mundo. O que eu sei é que há, definitivamente, uma necessidade dos países em todo o mundo reconhecerem o desporto como um agente de mudança social. Esse é o objectivo do meu trabalho.

Provavelmente a grande maioria das pessoas reconhece que o desporto tem essa capacidade de mudar vidas e de juntar as pessoas. Mas ao mesmo tempo, também há quem diga que o desporto está sempre um pouco atrasado em relação ao resto da sociedade. Nos EUA ouve-se muito a expressão “Stick to sports”. Como é que explica isto?

As pessoas querem que o desporto as entretenha, não querem ser educadas sobre problemas sociais. De certa forma, eu percebo essa ideia. Por vezes as pessoas querem, a todo o custo, ter um escape da realidade. Mas então e os atletas que têm de lidar com problemas como o racismo e a desigualdade? Será que eles devem aceitar ser discriminados de forma a não aborrecerem os seus superiores? Os fãs são pressionados pelos proprietários dos clubes para manterem a política fora do desporto. Consequentemente cabe aos proprietários decidirem se isso é mais importante do que apoiar causas sociais. Por este motivo, vemos que o desporto está atrasado em relação à sociedade. No entanto, o desporto nunca foi, nem deve ser, um espaço que ignora as questões políticas.

Por falar em política: neste Mundial a FIFA puniu vários jogadores e até treinadores, que manifestaram opiniões políticas ou extra-futebol, o que segundo a FIFA põem em risco o fair play. Concorda com esta decisão? Devem os jogadores poder expressar opiniões políticas?

Na minha opinião, estabelecer limites à liberdade de expressão de um atleta devia ser considerado ilegal. Eu percebo que o desporto é único, no sentido em que o que é entretenimento para as massas, é emprego para os atletas. Ainda assim, assuntos como discriminação no trabalho, igualdade de pagamentos e questões laborais estão presentes nas organizações, a toda a hora. Consequentemente, alguns empregados fazem greve. Portanto, quando situações de racismo e outras formas de discriminação acontecem no desporto, o que é que faz com que as organizações desportivas se sintam no direito de impedir as pessoas de protegerem os seus direitos ou os direitos das pessoas que eles representam? Eu incentivo fortemente os atletas a utilizarem a sua visibilidade para provocarem mudança social, e acredito que é errado as organizações desportivas ignorarem as pressões sociais apenas para irem ao encontro de uma agenda minimalista.

Pode dar algum exemplo, em que viu o desporto mudar a vida de uma pessoa ou comunidade e ajudar a combater estereótipos?

Há uma organização em particular, chamada Rockstar Baseball, a qual tem lutado bastante para derrubar estereótipos negativos e preconceituosos. Esta organização faz parte de um programa juvenil de beisebol, com o objetivo de ensinar a modalidade e ajudar os jovens a terem sucesso na sua vida futura. São uma das poucas organizações a terem muitos afro-americanos envolvidos, o que em muitas organizações americanas de Baseball, incluído a Major League Baseball, pode ser um problema. Muitos dos jovens que entraram nesta organização acabaram por ter percursos de sucesso no meio desportivo. É para isto que fazemos o nosso trabalho.

Tenho também um amigo meu, o JT Tam, que criou uma organização sem fins lucrativos, a fundação Harmony Aikido, onde ensina técnicas de defesa pessoal a jovens raparigas e mulheres. Eu acredito que as artes marciais são uma outra forma de desporto para criar mudança social.

Quais são os seus objectivos para o futuro? Algum sonho ainda por cumprir?

Quero continuar a crescer como um líder global no desenvolvimento do desporto e do seu impacto social. Quando pensamos em responsabilidade social de corporações, isto inclui organizações que para além de trabalharem com os desfavorecidos, têm a responsabilidade para com os stakeholders de originarem um bem social tangível. Desde iniciativas de inclusão e igualdade, a erradicar as desigualdades de género no desporto, até envolverem-se com organizações desportivas e cidadãos locais para lançarem iniciativas de desenvolvimento comunitário, o desporto tem muito mais potencial mudar a sociedade do que nós imaginamos.

Assim sendo, os meus objectivos e sonhos futuros são tornar-me num perito nesta área e trabalhar para organizações globais como a FIFA, a IOC, Beyond Sports e WAKO.

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