“O próprio deficiente ainda tem uma mentalidade retrógrada. É o reflexo da sociedade”. Teodoro Cândido, jogador de andebol em cadeira de rodas da APD Lisboa

“O próprio deficiente ainda tem uma mentalidade retrógrada. É o reflexo da sociedade”. Teodoro Cândido, jogador de andebol em cadeira de rodas da APD Lisboa

Teodoro Cândido tem 64 anos. Sensivelmente a meio do percurso, aos 32 anos, teve de enfrentar um dos maiores desafios da sua vida. Tudo começou por ser apenas uma ferida no dedo do pé, que passado vários meses lá permanecia. Mais tarde, descobriu que sofria de doença arterial periférica oclusiva, uma doença que estrangula as veias, o que origina uma diminuição do fluxo sanguíneo e faz com que este não chegue às partes mais distantes do corpo.

Depois de 5 anos com veias plásticas, a situação piorou e tiveram de lhe cortar a perna direita. Passou a viver com uma prótese no lugar da perna, mas diz que se habituou bastante bem, tão bem que muitos nem sabiam que ele era deficiente:

“Adaptei-me muito bem. Eu era operário da construção civil e eu subia e descia andaimes e muita gente não sabia que eu tinha uma prótese, porque eu subia e descia com muita facilidade. Actualmente a doença está estacionária, e eu apenas tenho de tomar uns comprimidos para o sangue diluir melhor. Claro que há sempre o risco da doença voltar, porque é uma doença que não tem cura.”, conta à Sports For All.

Teodoro tem quase tantos anos de vida com prótese, como sem ela, mas foi só há cerca de dois anos que descobriu algo, que veio mudar a sua vida para melhor: o andebol em cadeira de rodas. Estava em casa, a ver televisão, e estava a dar o telejornal, o qual noticiava o regresso da selecção nacional de andebol em cadeira de rodas, de um torneio na Bélgica. Ficou curioso, porque desconhecia a existência da modalidade, e foi pesquisar. O que descobriu chamou-lhe a atenção:

“Uma das equipas que aparecia muito nos vídeos era uma equipa do Sporting  – São Bartolomeu de Messines – e metade da equipa eram indivíduos com cabelos brancos, portanto percebi que eles deviam ter à volta de 50/60 anos. Pensei: se eles podem, eu também posso. Até porque eu joguei andebol quando era jovem”.

  1. E assim foi. Contactou a Associação Portuguesa de Deficientes (APD Lisboa) que tinha criado nesse ano uma equipa de Andebol, os quais se mostraram receptivos em recebê-lo. Mas havia um problema: a cadeira de rodas.  Nunca tinha andado de cadeiras de rodas e tinha medo de comprar uma e depois não se habituar e ficar a perder dinheiro.

“Tivemos de lidar com o problema de arranjar uma cadeira de rodas para jogar, porque as cadeiras são muito caras, não se justifica que custem tanto dinheiro. Tentámos arranjar uma cadeira em segunda mão, mas custava 1700 euros, e para quem é reformado é um preço exagerado. Estava com medo de experimentar, e de depois não gostar e ficar sem o dinheiro. Mas lá no clube disseram-me: ‘não se preocupe, você venha, porque nós temos cá cadeiras e pode experimentar à vontade”.

E assim fez. A experiência tem sido muito positiva, ainda que confesse que “a cadeira torna tudo mais difícil. É mais difícil andar de cadeira do que jogar andebol. Mas felizmente gostaram de mim e fiquei na equipa.”

Teodoro Cândido, a treinar no ginásio do Parque de Jogos 1º de Maio, em Alvalade

Mas nem todos conseguem ter a mesma oportunidade, até porque a reforma dos deficientes é, não raras vezes, muito baixa. Por exemplo, na equipa da selecção nacional, há muitos rapazes na casa dos 30 anos, que “recebem reformas de miséria. Alguns desses rapazes da selecção vivem com 300 euros… quer dizer, isto já não chega para pessoas normais, muito menos para um deficiente”. Ainda assim, muitos deles acabam por pedir reforma antecipada, por não lhes darem oportunidades de trabalho.

“Nós vemos, que há muitos sítios, onde podia perfeitamente estar uma pessoa deficiente a trabalhar, e não está. Está em casa, e não consegue arranjar trabalho. Eu por exemplo jogo com rapazes (na equipa nacional de andebol), que são paraplégicos, que podiam estar às vezes em certos serviços – como trabalhos manuais, nas caixas de Bombas de gasolina ou supermercados –  mas não lhes dão trabalho”.

Preconceito e uma mentalidade “retrógrada” 

Directo e sem rodeios, Teodoro não tem dúvidas: “o deficiente é marginalizado. Não há empresas que dêem emprego a um deficiente. Há as câmaras, as juntas de freguesias, mas uma empresa privada não dá”. A razão? O preconceito ainda muito latente na sociedade:

“Ainda há muita gente que acha que o deficiente não sabe fazer nada, não presta ou que não consegue fazer aquilo que os outros fazem. E não é verdade. Muitas das vezes até pode ter mais capacidade para trabalhar do que uma pessoa normal. Mas não tenha dúvidas. Eu quando era jovem trabalhei numa fábrica, em Cascais – a Senda Elétrica – em que trabalhavam lá quatro pessoas invisuais. Eles trabalhavam numa secção de linha de montagens e de televisões, e tinham maior produtividade do que as outras pessoas normais. Eles não se distraíam, aquelas mãozinhas estavam sempre a mexer. Podiam falar, mas as mãozinhas não paravam.”

Para Teodoro, o preconceito não é a única razão. Algo que também faz com que as oportunidades para deficientes sejam escassas, é a forma como a sociedade dos dias de hoje está organizada, com o foco no lucro:

“Nós vivemos num sistema em que impera o lucro, ou seja, uma pessoa que tem uma empresa não está ali para prestar acção social, quer é ter o maior lucro possível. É por isso que o particular não dá trabalho a um deficiente, têm de ser as câmaras. E mesmo o apoio das câmaras é algo recente, porque eu lembro-me que antes do 25 de abril os deficientes eram postos em asilo, ou estavam em casa fechados e nem à rua podiam vir. Apesar de o deficiente ainda hoje ter dificuldades, pode agradecer ao 25 de abril não ter as dificuldades que existiam naquela altura”.

No entanto, Teodoro não deixa o deficiente fora desta equação, afirmando que também ele tem que mudar a sua mentalidade, para que existe uma mudança do resto da sociedade:

“Eu acho que o próprio deficiente também tem uma mentalidade um bocado retrógrada, porque se fecha muito nele próprio, fica muito tempo em casa e não reivindica os seus direitos presentes na constituição. Mas pronto, acho que é um defeito que o deficiente tem, mas que é o reflexo do povo, porque o deficiente é uma ramificação do povo, e o povo também é assim… nós somos o espelho da sociedade que temos, e se a sociedade não é grande coisa, que eu considero que não é  – e eu pertenço a essa sociedade, não me estou a pôr à parte – o deficiente também não pode ser um super-homem, é um espelho da sociedade.

Deixa um Comentário