Porque é que as mulheres ainda são desvalorizadas quando falam de futebol? Tenho um palpite: interpretação errada do significado de uma amostra que está a mudar

Porque é que as mulheres ainda são desvalorizadas quando falam de futebol? Tenho um palpite: interpretação errada do significado de uma amostra que está a mudar

Não me interpretem mal. O Mundial de 2018 terminou e este tem, sem dúvida, sido o mundial da emancipação feminina no que ao futebol diz respeito. E ainda bem. Tanto por cá, como lá fora, foram muitas as repórteres e comentadoras que fizeram parte deste mundial, muitas delas que vivem o futebol dia-a-dia, sendo jogadoras, treinadoras ou jornalistas desportivas desde há muito. Ao mesmo tempo, são cada vez mais as fãs a demonstrarem a sua paixão pela modalidade. Mas, tanto fãs como jornalistas são ainda encaradas por muitos homens com um olhar de desconfiança e até de desvalorização das suas opiniões.

De facto, as críticas sexistas que se centram no género da comentadora e não na sua qualidade são ainda bastante recorrentes, o que tem levado muita gente a questionar-se: porque é que, em pleno século XXI, as mulheres são vítimas de sexismo quando o assunto é futebol? Eu tenho uma teoria, que não serve de modo algum para justificar ou desvalorizar a premissa idiota desta atitude – que é a de que o género, de per si, influencia a capacidade de uma pessoa em perceber e comentar futebol – mas sim para responder à pergunta: porque é que ainda muitos pensam assim?

A resposta é simples: a forma como fomos educados. A ideia de que o futebol é um desporto para homens é algo que só começou a mudar há pouco tempo e isso faz com que, naturalmente haja menos mulheres a perceberem de futebol do que homens. Porquê? Porque, perante o mesmo interesse, as mulheres encontram barreiras que os homens não encontram. Se não, vejamos os seguintes exemplos.

Se, há cinco anos atrás, uma miúda de 10 anos dissesse ao pai ou à mãe que queria começar a treinar numa equipa de futebol, se calhar metade deles dir-lhe-ia que não ou, no mínimo, punha mais entraves, os quais não iria pôr caso fosse um rapaz. Ao mesmo tempo, talvez a grande maioria dos pais que gostam de futebol incentivasse os seus filhos a irem ao estádio com eles e discutiam futebol com os mesmos. Porém, se fossem raparigas, eram capazes de não tomar essa iniciativa, pelo menos até que a rapariga demonstrasse interesse. Caso a miúda acabe por jogar numa equipa, é bem provável que, na escola, vá ser olhada como “one of the guys”, apenas porque joga futebol.

Onde é que eu quero chegar com estes exemplos, pergunta o leitor? Quero concluir que, tendo sido o futebol, tradicionalmente, um desporto “vendido” como sendo para homens – tendência que só recentemente começou a mudar e que está, ainda, em processo de assimilação para muitos homens retrógrados da nossa sociedade -, é mais que natural e óbvio que ainda existam mais homens a perceber de futebol do que mulheres, sendo que isto nada tem a ver com o género mas apenas com as condicionantes de que falei acima.

Quer isto dizer que o argumento dos homens que acham que as mulheres, pelo facto de serem mulheres, não percebem tanto de futebol como eles, e que nunca deveriam ser comentadoras nem sequer ser tidas como adeptas de verdade, assenta numa errada interpretação da amostra que a maioria do adepto comum tem no seu dia-a-dia: conhecer mais mulheres que percebem pouco de futebol do que as que tem um nível de conhecimento igual ou superior ao deles.

Obviamente que estes homens são pouco inteligentes e nunca se deram ao trabalho para pensar que a razão para este facto não é obviamente, o género mas a falta de incentivos que se dá a um género (o feminino) quando comparado com o outro (masculino): se eu fizer um jogo contra o Cristiano Ronaldo no Evereste e a minha baliza for no pico da montanha e a dele no sopé, eu tenho um feeling de que o Ronaldo não me vai marcar nenhum golo e de que eu até acabe por ganhar (esperemos que o Ronaldo não leia isto, se não ainda vou ter de engolir estas palavras mas pronto, agora já não há volta a dar).

Felizmente, hoje em dia, as mulheres – sejam jogadoras, comentadoras ou fãs – já estão longe do início da montanha, embora ainda haja bastante caminho a percorrer. O que significa que, cada vez mais existirão mulheres a perceber de futebol e, consequentemente, cada vez mais sapos os homens de visão limitada terão de engolir.

Opinião de José Bourbon

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