A depressão em alta competição: algo recorrente que deve deixar de ser tabu. Quem o diz são os atletas

A depressão em alta competição: algo recorrente que deve deixar de ser tabu. Quem o diz são os atletas

Os atletas de alta competição são geralmente olhados como uma espécie de extraterrestres pelo cidadão comum, como pessoas que vivem num mundo aparte, num mundo quase perfeito. Em alguns casos adquirem esta fama devido ao dinheiro que ganham, noutros devido à fama consequente do seu sucesso. É mais ou menos por aí que andam os argumentos de quem inveja a vida de um atleta de alta competição, geralmente esquecendo a pressão que esse realidade acarreta, que não raras vezes pode levar à depressão.

Depressão que afecta muitos atletas de topo, e não raras vezes aqueles que geralmente pensamos que têm tudo para estarem felizes. E se é verdade que a depressão em atletas de alta competição ainda é muito ignorada, tanto com que trabalha com eles como fora do meio, os últimos dois anos têm sido anos de início de mudança durante os quais  vários atletas têm vindo a público falar das suas histórias e da necessidade do desporto parar de ignorar esta situação.

Talvez uma das mais emblemáticas figuras desportivas a fazê-lo tenha sido o atleta olímpico mais medalhado de todos os tempos, Michael Phelps.

Rio de Janeiro. Michael Phelps recebe a sua 20ª medalha de ouro em Jogos Olímpicos. Viria a receber mais três de ouro. Em toda a sua carreira conquistou 28 medalhas. Créditos: Wimimedia Commons

O atleta americano passou por períodos de grande depressão, principalmente após os Jogos Olímpicos e nem mesmo as 28 medalhas que ganhou ajudaram a aliviar essa sensação:  

“Sabes, um atleta olímpico prepara-se durante quatro anos para este momento. E depois, quando tudo termina, sentes-te um pouco perdido. Não sabes bem o que fazer, onde ir, com quem falar. Muitos de nós (atletas dos jogos olímpicos) entram em depressão”, conta à CBS News. Revela mesmo que chegou a pensar suicidar-se:

“Cheguei a um ponto da minha vida em que não queria estar vivo. Uma vez, depois dos Jogos de 2012 estava no quarto e olhei para ver quantos medicamentos para adormecer é que ainda tinha. Só tinha um, se fossem mais, quem sabe o que poderia ter acontecido”.

Só em 2016, antes dos Jogos Olímpicos do Brasil é que decidiu finalmente pedir ajuda. Um momento de viragem em que percebeu que “não há problema em não estar tudo bem. Ninguém é perfeito… todos nós passamos por momentos e tempos difíceis. Para mim, o mais importante de tudo foi falar abertamente sobre isto e pedir ajuda.”

Mas porque é que demorou tanto tempo a fazê-lo? “Eu acho que isto era algo do qual no passado ninguém falava porque nós (homens) devíamos ser este grande, ‘macho’ e confiante atleta que não tem fraquezas. É suposto sermos perfeitos. E acho que o que aconteceu comigo é que eu deixei prolongar durante demasiado tempo e nunca falei sobre isto… provavelmente por medo de ser rejeitado.”

Ultrapassada este período menos positivo na sua vida, Phelps tem tentado servir de inspiração para as pessoas que estão a passar por algo semelhante, partilhando a sua história em conferências e programas de televisão, e dando sugestões aos mais jovens.

Se à primeira vista pode parecer surpreendente que um atleta que dominou a maior e mais importante competição do mundo tenha razões para estar tão infeliz, esta é uma situação que pode ser bastante comum. Este fenómeno, conhecido como depressão pós-olímpicos é apresentado num artigo para o The Atlantic intitulado: “O lado negro de tentar alcançar o ouro, no qual se explica que depois de viver níveis de emoção elevados num torneio como os Jogos Olímpicos, os atletas têm dificuldade em se habituar ao dia-a-dia e à rotina mais pacata comparativamente com o período dos Jogos.

Mas os casos não se ficam por atletas olímpicos e as razões nem sempre são as mesmas. Também o antigo jogador do Barcelona Andrés Iniesta confessou recentemente ter vivido um dos piores momentos da sua vida quando em 2009, o seu amigo e colega de profissão Dani Jarque faleceu durante um treino de pré-época na sequência de um ataque cardíaco, algo que coincidiu com a temporada em que Iniesta levantou a Liga dos Campeões e Campeonato do Mundo.

“Não me reconhecia, não me divertia. Estás com outras pessoas e parece que não tens sentimentos ou paixão. Estás vazio por dentro. Depois houve um momento em que percebi que não podia continuar assim. Tive a capacidade de perceber que precisava de alguém que me ajudasse a sair daquela situação”, explica numa entrevista ao El Hormiguero 3.0.

Quis mais tarde o destino que Iniesta tivesse a oportunidade de dedicar a Jarque o golo que deu a vitória à Espanha no Mundial de 2010 frente à Holanda.

No entanto, Iniesta não foi único ex-jogador do Barcelona a passar por momentos de depressão. Bojan Kyrkic, que jogou na última temporada no Alavés de Espanha, teve vários ataques de ansiedade, como contou ao The Guardian em maio deste ano, apontando o dedo a quem trabalha no futebol:

“Fui chamado para fazer a minha estreia a nível internacional contra a França, mas também não joguei. Disseram à imprensa que eu tinha tido uma gastroenterite quando na verdade tive um ataque de pânico. Mas ninguém está interessado em falar sobre isto, o futebol não está interessado. Também não estive no Europeu de 2008 devido a questões de ansiedade mas dissemos que eu ia de férias.”

A dificuldade em lidar com uma ascensão demasiado rápida na carreira é a razão que encontra para estes ataques: “Quando em julho fui ao Mundial de sub 17 ninguém me conhecia, quando voltei nem conseguia andar na rua. Uns dias mais tarde estreei-me pelo Barcelona (batendo o recorde de Messi), três ou quarto dias depois na Liga dos Campeões, depois marco contra o Vilarreal e em fevereiro chego à selecção espanhola.  Foi difícil lidar com tudo isto e com o que os fãs e imprensa diziam, para eles eu era o “novo Messi”.

CASOS PORTUGUESES

Os dois casos mais recentes de portugueses desportistas de alta competição a assumirem publicamente que atravessaram (ou atravessam) depressões foram André Gomes e Célio Dias.

O caso André Gomes é também ele diferente dos três anteriores: não estava deprimido porque a carreira dele cresceu demasiado rápido, nem porque algum familiar próximo tinha falecido, nem sequer era o caso (apesar da sua qualidade) de  a imprensa blaugrana estivesse à espera que ele se tornasse o “novo Xavi ou Iniesta”.

Segundo o médio, o problema surgiu da pressão que mete em si mesmo, do excessivo perfeccionismo e autocrítica, que não lhe permite usufruir dos jogos. Mas este problema, também lhe começou a afectar fora de campo, admitindo que por vezes tem vergonha de sair à rua.

Célio Dias é outro atleta português que passou por depressão. O caso do judoca nacional talvez tenha contornos semelhantes com o de Phelp, no sentido em que também aconteceu por stress pós-jogos Olímpicos, mas no caso de Célio foi por não ter conseguido lidar com a derrota depois de tanto tempo de preparação:

“Eu não estava preparado para perder. Fui ao estágio de Castelldefels [Espanha], estava em grande forma e pensei que a medalha no Rio’2016 era certa. Não soube lidar bem com a frustração de perder com um adversário muito menos cotado logo no primeiro combate. Custou-me muito. Seguiu-se um período muito complicado, porque tive um surto psicótico, perdi o contacto com a realidade e comecei a produzir sentimentos irreais”, contou ao Record.

Já numa entrevista ao Expresso e falando do mesmo tema, Célio confessou ter uma relação de amór-ódio com o judo:

” Tudo no judo me assusta. Tenho uma relação esquizofrénica com este desporto: por um lado, quero muito o judo mas, por outro, tenho receio dele. E o que mais me assusta é sentir que tenho um grande potencial mas não obtenho resultados que vão de encontro a esse potencial.”

Célio Dias, André Gomes, Michael Phelps, Andrés Iniesta e Bojan Kyrkic têm trajectos totalmente distintos, mas uma coisa em comum: todos eles passaram por momentos de depressão, em que se sentiam a mais, sem força e vontade de viver. Como eles há muito mais atletas que passaram pelo mesmo, muitos deles continuam em silêncio.

De acordo com Kirsten Van Heerden, autor do livro “Acordar do sonho” para que haja uma diminuição do número de casos é essencial parar “de vender o sonho da vida do atleta profissional aos jovens atletas (e pais) sem também os preparar para os desafios inevitáveis que eles enfrentarão”, explica num artigo intitulado: Demónios Interiores no desporto: o que vai acontecer aos jogadores depois do Campeonato do mundo terminar?

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